Friday, July 30, 2010

José Peseiro e uma escola de treinadores da gramática

Ontem estava aqui a escrever sobre um dos treinadores bem falantes do nosso futebol, o Queiroz, e hoje aparece uma entrevista extensa do Peseiro a perguntas dos leitores d'A Bola. Vale a pena ler, nem que seja para perceber melhor o modo como este treinador pensa e que o levou a ser cognominado como "O Treinador do Quase", quase que conseguiu um campeonato, quase que conseguiu uma Taça Uefa, quase que chegou ao Mundial, e quase que ganhou alguma coisa na sua carreira.
Mas o que me interessa mais aqui é mesmo esta escola de treinadores que emanam uma aura de sensatez, de estudo, de conhecimento e que depois no fim nunca conseguem sair da cepa torta. Falo de Queiroz, falo de Peseiro, falo de Carvalhal, falo de Manuel Machado e desta escola toda gramatical, que partilha uma postura quase arrogante em relação ao resto, para além da natural ausência de títulos.

Mourinho disse recentemente que com as novas denominações que inventaram para o futebol, qualquer dia não percebe nada do tema. Quando vejo este trecho da conversa do Peseiro, começo a perceber o que ele quer dizer:

Não sei o que são maçãs podres num balneário de futebol. O que sei é que um plantel é um conjunto heterogéneo de jogadores, de personalidades, de culturas, etc…. E diferentes contextos, diferentes culturas apontam para diferentes personalidades, de que resultam diferentes comportamentos. Isto é um balneário e é nisto que acredito. Depois, existem contextos, todos diferentes e processos evolutivos. Uns evoluem bem, outros mal. Tudo isto deve ser liderado por uma pessoa, em prol da equipa e do colectivo. É a liderança que estabelece as diferenças e estabelece as regras. Liderar é construir a partir de todas as diferenças individuais existentes, um colectivo forte na perseguição de objectivos comuns. É por isso que o trabalho de um treinador vai muito para além da dimensão táctica, técnica e fisiológica do jogador, tendo de ser também focalizada ao nível das dimensão psico-social e cognitiva. Por tudo isto, é difícil de falar de maçãs podres num balneário. O que existe são comportamentos que resultam de uma série de factores que devem ser dominados por quem lidera. 

Digam o que disserem, não é inocente a excessiva utilização da palavra "Liderança", ele que foi tão criticado pela falta de mão no balneário quando esteve no Sporting. Tem toda a razão no que diz o Peseiro, ser treinador é ser um líder, mas imagino o que pensa um grupo de jogadores na casa da vintena de anos quando chega ao balneário com esta conversa. Jorge Jesus é um grande bronco com mau feitio, mas acredito perfeitamente que consiga levar um grupo a jogar até ao limite. Mas este pertence a outra escola, mais antiga, como Cajuda e Quinito. É a mesma escola que não tem tanto paleio na teoria e passa mais à prática.

São duas maneiras de pensar distintas, não sei se isto também acontece noutros países. Acredito que cá em Portugal, onde muitas vezes as aparências têm uma relevância exagerada, seja mais comum e visível.
É claro que não é só isto que define um treinador, como é óbvio. Mas é interessante analisar o discurso destas personagens do nosso futebol.

Quanto ao resto da entrevista, Peseiro disse que cometeu o erro de lutar pela Liga e pela UEFA (veja-se o que fez o Benfica esta época e foi campeão), defendeu Queiroz, como ex-adjunto só tinha de o fazer, quer ser seleccionador nacional (já nos basta um Queiroz, obrigado), e fala sobretudo do Sporting devido à sua marcante passagem. Também fala com orgulho do seu curriculo, de treinar equipas de topo, apesar de serem equipas de topo de campeonatos mais fracos como o grego, o português e o romeno. Quando regressar a Portugal, daqui a uns anos, logo veremos se confirma as suas credenciais.

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